Flores não murcham

Outro dia quando saía de casa assisti a uma cena incomum e, por isso, encantadora. Um garoto – tinha lá seus 17 anos – segurava um buquê de flores rosa, que tinha arrancado ali adiante, na casa da vizinha, enquanto se escondia por detrás de uma árvore e olhava nervoso, vez ou outra, na direção em que seguia a rua.

Ele não me notou. Mas o observei por alguns instantes, rindo por dentro e por fora para àquela imagem tão pura. Não preciso ser uma expert para saber que aquela a quem ele esperava era a pessoa amada. Uma pessoa sortuda!

Recebi raras flores em todas as minhas experiências amorosas e posso contar, em mínimos detalhes, cada cena, quem eram aqueles rapazes e o que eles significaram para mim… Da orquídea solitária, passando pela flor silvestre roubada de uma praceta, ao arranjo caprichoso de rosas vermelhas, pétala por pétala, nada me fará esquecer.

Não acredito no que dizem; flores não murcham. Nunca, jamais. Também não as considero presente. Elas são um símbolo, um agrado, palavras não verbalizadas de um coração tímido. Uma vez entregues, nada mais precisa ser dito.

Gostaria de ter ficado para ver o desfecho da história.

 

Sem talvez e nem metades

Odeio cabelos molhados grudados em copos ou pratos. Odeio quando saio na rua, depois de um banho impregnado de cheiros, e cruzo com fumaças, especificamente de cigarro. Esgano, com os olhos, o portador do mau odor. Odeio, por força do hábito, passos de lesma que me impedem a passagem. Ou zigue zague displicente na calçada, buzinaço no trânsito, a lentidão do garçom, homem de papete, comida com pimentão, milho, azeitona e ervilha.

Amo as flores, todas elas; o contraste com o real e como elas me fazem abrir um sorriso involuntário de canto de boca e me deixam em paz. Ouço repetidamente as músicas que gosto, até esgotar a vontade. Tenho fascínio por cães dóceis e eles também me fazem sorrir, assim como as crianças, apesar da não vocação pra mãe. Adoro perfumes suaves e o aroma que fica quando uma pessoa passa.

Adoro chuva e a odeio. Adoro família e amigos – na maioria da vezes. Prefiro cães à gatos, doce à salgado, seco à molhado, sol à nublado. Qual sua cor preferida?

Odeio o talvez assim como odeio metades. Metade de você não serve. Pode ser que você não entenda, mas quando teu olhar penetra em mim sinto um terrível conforto e falta de dúvidas. Falta-me as palavras e ainda assim digo tudo que jamais saiu de mim.

Não, não pretendo te propor casamento, mas o apresentaria aos meus amigos íntimos. Segurar tua mão enquanto ando não me incomoda e tenho saudade do teu toque enquanto você fala do outro lado da mesa. Não consigo segurar o olhar no teu por muito tempo, mas é que não consigo parar de mirar tua boca rosada e a covinha do teu rosto.

O teu sono permanente combina com a minha preguiça eterna, podemos ser e estar na mesma cama. Também adoro sushi, pode ser nossa senha secreta. Tenho pânico de filme de terror, mas se você prometer me cuidar, deito no teu peito e tremo de medo só pra te ter mais tempo por perto.

 

 

 

 

Pouco e ruim

Não era um homem de muitas palavras. A introversão, no entanto, não era o problema; longe ainda da puberdade, gozava de mulheres experientes nos cabarés em que seu pai o levava. Viveu desde logo a sensualidade da existência e se perdeu nela. Fora, antes de mais nada, apaixonado pela putaria. E isso envolvia mulheres, quantas fossem.

Mal sabia tratá-las fora da cama, fazer gracejos, envolvê-las de gentileza. Sua linguagem era outra. Não envolvia palavras.

Por sorte era galante, tinha um charme bruto, meio selvagem, mas o olhar carinhoso de onde deixava escapar um lado imaculado, imperceptível à primeira vista.

Uma vez que se deixava envolver em discussões desatava a falar. Com frases mal articuladas, é verdade, e quase sempre possuído de razão. Embebido de doses ardejantes a autoridade virava seu nome, mesmo sem o sê-lo.

Nunca levantou a mão a quem quer que fosse, até sentir uma fúria súbita ao ver o pai encostar na mãe.

Nesse dia, descobriu como falar com as mãos e também com os pés. Aprendera com o pai pouco e ruim de quase tudo na vida, até que chegou sua vez de ensiná-lo uma lição.

Boa viagem

Subi para o ônibus logo atrás de um rapaz que acenou para me ceder à vez; agradeci a cortesia, mas estava enrolada para tirar o dinheiro da bolsa. Ainda dos degraus o ouvi perguntar, educadamente, ao motorista qual seria o trajeto até a Praia do Flamengo.

Já grosseiro, o condutor cuspiu que seguiria pela Voluntários. O moço agradeceu mesmo assim, porém ainda tinha algumas dúvidas. Na Praia do Flamengo, o Senhor sabe dizer se tem ponto próximo à Farani? — Sei não. Mas o ônibus para na Praia? — Para. O Senhor não sabe dizer se tem ponto por ali? — Amigo, tem ponto lá, eu só não sei dizer qual é.

Desembestou no monólogo: — Quando chegar lá você vê. Se tiver você desce, se não, num desce, espera chegar o próximo; agora eu que vou ter que saber qual é o ponto? O outro pergunta qual a rua, a outra pergunta do shopping. Num sou central de informação não; já sou motorista, cobrador, ainda tenho que ficar dando explicação do caminho que vou.

Despejou no cara gentil tudo o que devia estar entalado daquele dia. Eu, que tinha também minhas perguntas, deixei de lado e me dirigi a outra pessoa.

Moço: sabe dizer se esse 410 vai pela Lapa? — Vai não, Senhora. Tem algum que vá? — Tem não, Senhora. Mas… — Tem que reclamar com o Dudu, porque até ele mandar ou desmandar, nenhum 410 vai passar pela Lapa. Obrigada!, agradeci com um sorriso amarelo.

Às 22h30 descobri que teria que pegar dois ônibus porque o prefeito tinha acabado de decidir que o 410 — que eu sempre peguei para ir à Lapa — não me deixaria mais em casa.

Nos dias seguintes, reparando na rotina dos passageiros e no trabalho dos motoristas, percebi que ambos andavam mais mau humorados que de costume. A cada parada que o transporte faz, há pelo menos uma pessoa querendo informações. E a cada ônibus a ser tomado, alguém se certifica do trajeto.

No decorrer dos dias os dois lados se engalfinham, falam meia dúzia de palavrões, e levam um monte de desaforos para o travesseiro. De graça.

Quer dizer, de graça não. Por R$ 3,80 ou apenas pelo dia inteiro ao volante curtindo o calor e trânsito do Rio de Janeiro.

M de metáfora

Tive prova de matemática de novo. Arquitetei junto à minha melhor amiga um esquema de cola; ela morria de medo de “cooperar” com o que eu chamo de minha única salvação. Então sempre preciso bolar um plano infalível, convencê-la de que nada dará errado e que ela não será prejudicada.

Como sempre, esperei que ela fizesse a prova tranquilamente, sem importuná-la, respeitando seu brilhante raciocínio matemático, além do perfeccionismo exagerado, para que já no fim do tempo hábil ela me passasse todo aquele emaranhado de números, incompreensível para mim, para que eu pudesse transcrever antes de tocar o sinal.

Só que assim que pus as mãos no “tesouro” o professor sugeriu uma dança das cadeiras fora do script, perdi-me nos cálculos, embaralharam-se os papeis. Deu-se início ao meu agonizante desespero.

Assisti um a um entregarem as provas e saírem da sala, triunfantes. Olhava para as folhas em branco, buscava no fundo da minha alma solução para aqueles problemas. Sem sucesso.

Provável que tivesse nos olhos aquele ar de cachorro desamparado implorando por comida; os colegas de sala viam e sentiam pena. Os que compartilhavam o sofrimento lançavam o penso no olhar de volta.

Acordei mais uma vez esbaforida do pesadelo. Derrotada, de novo.

A recorrência desse sonho escabroso dói no fundo da minha existência, sem importar o quanto se repita. Não é uma situação a qual consiga me acostumar. E se, por acaso, alguém estiver à procura de uma forma de tortura contra a minha pessoa, essa seria a mais indicada.

Entretanto, um adendo.

Para o meu completo desespero percebi que já estou numa infindável prova de matemática, onde não é possível criar uma estratégia minimamente satisfatória.

Adivinha quem está para reprovar?

Culpa cristã

Costumo evitar proferir meus pensamentos. Não é sempre que tenho controle sobre como eles se formam e nem sobre as conclusões que eu chego. Outro dia pensei que os 25 já são uma idade boa para se morrer. Ando cansado o suficiente nesse quarto de século, quantos mais são necessários?

A maior parte das pessoas que tenho conhecimento escolheria morrer o mais velhas quanto pudessem chegar. Não posso concordar. Chega um determinado ponto que o ritmo se torna repetitivo, a música fica lenta e os passos imutáveis. É hora de deixar a pista.

Entendo quando dizem que os sonhos nos mantém vivos. É verdade. Me pergunto o que sobra quando não os temos.

Não foi ideia minha pertencer a isso. Nem imagino de quem foi a brilhante invenção, mas gostaria de poder reivindicar. Obviamente, a alguém que pudesse resolver a situação, já que minha analista nada faz.

Tentei persuadi-la de que tirar a própria vida é uma das escolhas mais genuínas da humanidade; até sem me dirigir uma única vogal ela me repreende, como se eu tivesse confessado que pretendo o suicídio.

Só para tornar a história mais clara: eu não o pretendo. Tenho medos demais para tal. Além disso, cresci numa escola católica. Segundo eles lá, seria uma ofensa incalculável para o Senhor Deus; impossibilitando minha entrada em Seu Reino.

Engraçado porque tenho dúvidas no que acredito, mas a culpa cristã já foi projetada no meu subconsciente. Penso também que minha avó não ficaria feliz de não me encontrar pelos céus.

E embora nada do que se passou até aqui faça sentido, o lado positivo é que ninguém ouviu uma palavra.

Vagando…

Ergui a cabeça e o encontrei ali, parado, à espera de seu destino, fitando o chão metálico.

O reconheci imediatamente. Tinha o ar cansado, as roupas já gastas e uns calçados que indicavam trabalho pesado.

As marcas na pele diziam um pouco mais; senti que contavam uma vida. Tive dúvidas sobre a amargura no olhar, preferi acreditar que era impressão minha.

Atazanário dizia o crachá que, com cuidado, guardou no bolso esquerdo da camisa. Curioso… Atazanário.

Exibia ao longo dos braços e mãos o calor do Sol, desgastado, envelhecido. Desconfio que tenha passado muitos dias escaldantes, ficaram todos eles registrados no couro.

A expressão do rosto era crua. Trazia também muitas marcas de Sol, além de sorrisos no bigode chinês profundo. Vincos largos, algum excesso de pele e orelhas grandes de velhice.

Pareceu triste, como se tivesse à espera do fim, depois de já ter assistido de um tudo nesse mundo.

Poderia ser meu avô. Na verdade, naquele momento o adotei como tal. Guardei em mim o pedacinho de história que sua figura me tecia e cresci um bocado, em silêncio.

Se tivesse me olhado de volta teria sorrido; mas desceu do vagão devagar, sem me ver.

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